
Mal conseguiu pegar no sono aquela noite pois uma certa agonia juntamente a fungados causados pela alergia a perturbava. Mas não era só isso. Quando o sono parecia estabelecido, o celular em baixo de seu travesseiro toca.
[1:43h da madrugada.]
- Oi...
- Oi... Tava dormindo?
- ...
- Estou com saudade.
- ...
- Olha, eu sei que a gente não deu certo, mas eu te amo...
- ...
- Te amo, te amo, te amo, te amo, te amo...
- ... (Apenas um suspiro.)
- Está ouvindo?
- Aham.
- Você já me esqueceu?
- (Silêncio breve.) Não. (Outro suspiro e um fungado.) Por que você não está dormindo?
- Você quer dormir?
- ...
A ligação cai (ou não). Ela de agoniada passou para indignada. Por que ele havia ligado? O que queria? De certo queria ouvir que ela também ainda o amava, mas já não era hora de falar sobre isso. Dias haviam se passado e ela já estava se acostumando a não falar mais de seu amor.
[1:51h da madrugada.]
- Oi...
- Amor...?!?
- Oi.
A ligação cai outra vez. Quanto mais o tempo passava mais aumentava a sua indignação. Por que ele insistia? E por que a ligação caía? Alguns minutos mais se passaram e ela enfim conseguiu pegar no sono novamente.
[2:15h da madrugada.]
- ...
- Oi.
- Oi.
- Tá com sono?
- (Suspiro.)
Outra vez a ligação é encerrada. “Não vou mais antender”, decidiu ela. Colocou o celular no modo silencioso e sem vibrar. Nada mais perturbaria seu sono, a não ser a sua própria ansiedade. Vez por outra tirava o celular debaixo do travesseiro para ver se havia alguma chamada não atendida. Repetiu o gesto algumas vezes até ser vencida pelo cansaço.
...
Ela pulou da cama quando viu a claridade em seu quarto anunciando que o sol já havia acordado há algum tempo. Olhou o celular sem saber ao certo se o que pretendia de imediato era ver as horas ou se ele havia chamado alguma vez depois que voltara a dormir. Sentiu uma certa decepção misturada com alívio. O objeto indicava 9:10h da manhã. Sem pensar em mais nada deu início a sua rotina somente um pouco atrasada...